COMO SURGIU A LAMBADA E O ZOUK AQUI NO BRASIL

Jairo Brasil
Minha vida se confunde com a Lambada e o Zouk:

De Jairo Brasil, para Aníbal... Olá Aníbal... Eu sou Jairo Brasil, conhecido no meio da lambada, ou como DJ Brasil, ou como simplesmente Brasil, ex-dançarino do grupo KAOMA. Sou paulistano, mas faz 03 anos e meio que estou morando em Fortaleza, Ceara. Conheci a lambada em agosto de 1987, levado por um amigo da faculdade. O lugar se chamava Lambateria UM, inaugurada em fevereiro do mesmo ano por um baiano chamado Jose Teixeira e seu filho Andre Teixeira. Foi a primeira lambateria da capital paulista e ficava no bairro de Pinheiros. La cabiam no máximo 100 pessoas, somente universitários a frequentavam, todos dançando alucinadamente ao som de fitas cassetes que o Teixeira trazia de Porto Seguro. Foi paixão a primeira vista, ou melhor, a primeira lambada. Abria de terça a domingo e estava sempre lotado. Sou um apaixonado por musica, sempre perguntava e prestava muita atenção no repertorio dessas fitas, na época nós dançávamos ao som da Banda Mel, Reflexus, Missinho (Guajira do amor), Jose Orlando (Eu tenho pena de você, Lambada Reggae), Alipio Martins (Eu quero Gozar), Márcia Ferreira (Chorando se foi), Paulinho do sax, Teixeira de Manaus, Mario Gonçalves e algumas lambadas internacionais, como era dito na época, La Compagnie Creole, Arrow (Colombia Rock, Hot Hot Hot) e três musicas de um tal de Kassav (entre elas KA Dance, e mais uma que tinha quinze minutos de duração e que era um grande desafio para todos os frequentadores (Esqueci o nome dela).


Não demorou muito, um empresario da noite vendo o sucesso estrondoso da Lambateria UM, ainda mais sem nenhum tipo de divulgação na mídia, inaugurou em janeiro de 1988 o Rala Koxa, a segunda lambateria de São Paulo, a duas quadra da concorrente, com o mesmo espaço apertado para no máximo 150 pessoas. Através de um amigo que iria ser promoter da casa (Chiquinho Correa), fui convidado para ser o programador musical do Rala Coxa. Como não tínhamos essas fita de Porto Seguro, fomos ao Centro de São Paulo e compramos tudo o que se referia a samba reggae (axe), lambadas do Pará (Teixeira de Manaus, Paulinho do Sax, entre outros), encontramos, com muito custo, os discos do La Compagnie Creole, aquele do Kassav, o do Arrow e o famoso Lambadas Internacionais, ate hoje encontrados em varias lojas. Gravei as fitas, e... sucesso. Era por a fita e sair pra dançar, quando acabava, era so trocar o lado e tome lambada. Abríamos de segunda a domingo, lotado todos os dias. A lambada fazia um sucesso impressionante. Eram filas para entrar tanto no Rala, quanto no Lambateria UM. E a frequência eram basicamente de universitários, de todas as tribos. Para evitar o esgotamento do repertorio fui fazendo algumas experiencias com algumas musicas, pesquisando em ritmos que se aproximavam do ritmo da lambada, alguns frequentadores davam sugestões trazendo de Porto Seguro fitas com novidades e ate daqui de Fortaleza, uma lambadeira de nome Fabiane, trouxe discos do Beto Barbosa e da Eliane, que quando lançados, foram sucesso absoluto. (Obs. Essa tal Fabiane, que na época era uma grande amiga minha, hoje é minha esposa).


O sucesso que era a lambada na Lambateria UM e no Rala Koxa, corria boca a boca pela cidade, deixando as duas lambaterias sem condições de receber tanta gente, vinda de toda a cidade. Foi quando em abril de 1988, houve a inauguração da primeira grande lambateria de São Paulo, o Lambar. Com capacidade para 1000 pessoas. Foi uma grande aposta do empresário Sergio Louzão,conhecido da noite paulistana como dono da antiga casa de rock "Calabar", ao fazer uma casa com muito espaço e finalmente com cabine de som, com dj, pick up e tudo que se tinha direito. O Dj Mané (atualmente tocando zouk no Hollywood Project, em São Paulo) foi quem inaugurou a casa com muita competência e criatividade, já que ele não tinha muito conhecimento de lambada na época. Em maio do mesmo ano, fui convidado para dividir a cabine com Dj Mané, quando realmente assumi minha nova profissão: DJ. Meu entrosamento com ele foi perfeito, aprendi a ser um DJ e quanto as músicas, seguimos a mesma linha que havia sido implantada no Rala Koxa, agora com mais qualidade e com suporte para fazer novas experiências musicais.


O Lambar logo tornou-se um sucesso e, em questão de meses, São Paulo foi tomada por outras grandes lambaterias, como a Lambateria Porto Seguro, Lamba Reggae (hoje Reggae Nigth) e Caribe, entre outras. Os grandes sucesso eram as bandas baianas, com Luiz Caldas, Chiclete com Banana , Reflexus, Banda Mel, Cheiro de Amor, Sarajane , além do grande Beto Barbosa, José Orlando, as novidades que eram músicas do Paralamas, Gloria Estefan (Conga), Gilberto Gil (Toda Menina Baiana). Quanto as lambadas internacionais, ou francesas, como queiram, pesquisamos seus cantores e grupos e começamos a importar, já que a oferta destes discos eram quase nenhuma, em São Paulo. Quando eu e o Dj Mané nos demos conta, as preferências nossas e dos lambadeiros começaram a mudar. Aí em outubro do mesmo ano, Sergio Louzão sugeriu abrir uma outra lambateria, com repertório de pelo menos 50% de músicas caribenhas e assim surgiu a MEL, Ritmos do Caribe, pra onde eu e Dj Mané fomos. Lambada brasileira virou flash back e o Zouk tomou conta da Mel. Lá tocávamos seleções musicais de Salsa, Merengue, Kompas, Soukous, Soca e principalmente Zouk e Zouk-Love (ritmo, conhecido como lambada francesa, atualmente utilizado para dançar a Lambada-Zouk). A Mel era uma lambateria diferenciada das outras, que mantiveram a mesma linha de lambada pura. Era só irmos para outras lambaterias que logo éramos identificados como lambadeiros da MEL.


Outra aposta nossa que deu muito certo foi o Gipsy Kings. Além de ser uma proposta diferente, percebíamos que a onda do samba reggae, que era nossa grande fonte musical estava em baixa e além disso a dança estava com características bem diferentes do que era considerado pura lambada. Os casais pareciam flutuar na pista, com mais suavidade e muito mais harmonia. Em dezembro do mesmo ano o Reggae Night, organizou o primeiro grande concurso de lambada em São Paulo, com casais vindos de toda a cidade, inclusive de Porto Seguro. Dos seis primeiros colocados, quatro foram da Mel e dois do Lambar e tive a felicidade de ganhar o concurso ao lado de Fabíola.


No mesmo mês a Mel também se instalou por dois mêses em Arraial D'ajuda, ao som de muito zouk, o que causou a princípio uma certa estranheza aos nativos, mas não aos turistas paulistas que invadiam as praias de Porto Seguro, em busca da Terra da lambada, que tanto sucesso fazia em São Paulo. Foi também o começo do grande sucesso de Beto Barbosa, que tinha entre seus dançarinos, dois casais cearenses e dois casais paulistas, frequentadores da Mel e do Lambar, Bene e Betania, e Adiel e Cida. E foi justamente ao som de muito Zouk, que em junho de 1989, empresários franceses que estavam frequentando todas as lambaterias paulistanas, além da Boca da, em Porto Seguro e que me viram dançar lá na Mel, me convidaram para dançar profissionalmente na França, mas até então não tinha idéia do que viria pela frente, tinha 21 anos na época, exigindo apenas uma passagem de volta nas minhas mãos.


Embarquei juntamente com Adiel, Gabriela e Genésia, além das duas crianças Roberta e Washington, no dia 07 de junho de 1989 para Paris. Ao chegar em terras francesas, quando um carro foi nos buscar no aeroporto, o rádio do carro estava ligado numa fm chamada Tropic FM, tocando muito zouk. Endoidei mais ainda quando chegamos no nosso flat em Paris. O bairro era Montmartre, simplesmente o reduto do povo de Guadalupe e Martinica em Paris. Era loja especializada em zouk para todo lado. Dias depois, ainda sem saber direito o que nos aguardava fomos para Ibiza, na Espanha gravar um clipe, quando conhecemos os músicos do Kaoma e gravamos Chorando se Foi. Dez dias depois, o clipe passava nos principais programas franceses e a música estourava em todas as rádios. Sucesso absoluto. (Eu, Anibal Bentes, estava em Paris, quando o clip foi lançado. Não conhecia o Kaoma e pouco tinha de informação sobre a lambada. A sincronicidade é que quando cheguei ao quarto do hotel e liguei a tv, que estava na MTV, estava passando justamente Chorando se Foi, fiquei surpreso de ter uma música em português na programação da tv local. Estava selado o meu destino com a lambada francesa).


Enquanto isso, abastecia ininterruptamente o Dj Mané, na Mel com o que tinha de melhor do zouk no momento, me intoxicando de informações musicais, principalmente porque dois dos músicos do Kaoma, Jackie Arconte, guitarrista, e Chico Dru, baixista, eram da Martinica e músicos de estudio dos principais grupos e cantores de zouk. Tive também a felicidade de assistir a dois shows dos Deuses e Pais do zouk, o Kassav, também do La Compagnie Creole e das gatas do Zouk Machine, além de conhece-los pessoalmente. O sucesso do Kaoma teve reflexo imediato no Brasil inteiro, surgindo muitos grupos e casas e mais casas de lambada, foi realmente uma grande felicidade. Depois de um ano e meio no grupo, voltei para o Brasil por razões pessoais, continuei meu trabalho como DJ, sempre ao lado do parceiro Dj Mané e fiel ao zouk. Fiz ainda uma temporada com Beto Barbosa em São Paulo, algumas apresentações em televisão com José Orlando e, em novembro de 1990, fui convidado para ir a Africa do Sul, fazer uma série de apresentações durante dois meses.


Em 1991, abandonei a discotecagem, me afastei da lambada e em outubro de 1992, reencontrei Fabiane (aquela do Rala Koxa) inesperadamente começamos a namorar e já estamos casados há oito anos, com três lindos filhos da lambada, Thomaz, Arthr e Murilo. Em 1998 mudamos para Fortaleza, mais sempre que possível,vamos a uma casa de forró dançar uma lambadinha, no estilo zouk de dançar e ouvindo sempre no carro e em casa muito zouk, já que ainda tenho alguns cds e fitas do gênero. Aqui tive a felicidade de reencontrar o José Orlando e conversamos tanto sobre zouk, que ele fez belo zouk love no seu disco de 2000 e lançou sua filha como cantora Karla Kamila, cujo repertório é 50% de zouk e uma das faixa é minha composição em parceria com José Orlando.Ele que ultimamente tem gerado seus discos em Belém do Pará, me fala da febre que é a música zouk por lá, inclusive me mostrou alguma músicas de primeira qualidade feita pelos cantores locais. Aqui em Fortaleza, houve uma rápida febre de lambadão, cantada pela banda Stillus, com a música chamada Toque Toque Dj, o próprio José Orlando tambem gravou um disco, além de Beto Barbosa, que até toca um pouco nas rádios. Mas o grande sucesso por aqui é um zouk muito legal, chamado "Loirinha" cantado pela banda paraense Kalipso. Aníbal, espero que tenha gostado da minha história, estou a disposição para qualquer informação adicional sobre a lambada, o zouk e o Kaoma. Entendeu porque minha vida se confunde com a lambada e o zouk? Um grande abraço, BRASIL.


Janeiro de 2003. Reportagem Mariana Caminha http://www.jornaldebrasilia.com.br/


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